terça-feira, 10 de julho de 2018

Carta para Rafael - 45 dias de muito amor, descobertas e acima de tudo, muita fé.

Boa tarde meu amor, como você passou o dia hoje com a vovó e com a tia Míriam? Mamou tudo e arrotou direitinho? 
Aqui no hospital está tudo bem, o médico acabou de falar que se eu continuar sem febre, vai me dar alta na sexta feira, então só temos mais um dia separados, tá? Aguenta aí e seja obediente! 

Vou aproveitar que o papai saiu para ir na farmácia e te contar tudo que aconteceu desde que você nasceu... 

cartas para rafael, diagnostico câncer de mama, isso também vai passar, nossa senhora devastadora dos nós

Vamos começar do início: 

A mamãe já sabia que teria você desde sempre, você foi muito planejado e esperado, mas algumas coisas com a mamãe não saíram como desejamos. Quando você completou 30 semanas, minha mama direita inchou e estava bem estranha, mostrei pra tia Mirtza que é ginecologista e estava acompanhando a gente, então ela me encaminhou para a tia Maria Luisa que é mastologista e falou que isso podia acontecer durante a gestação e pediu um US para garantir que estava tudo bem e realmente estava! 
A recomendação foi colocar gelo de 2 em 2 horas, mas como eu trabalhava o dia todo, colocava de manhã e a noite. Você costumava mexer quando colocava o gelo, acho que o geladinho te incomodava um pouco. 

O tempo passou e chegou o grande dia, você nasceu lindo e saudável no dia 12/05/2018 - minha cara! 
Achamos que a mama ia melhorar porque você ia mamar e ela ia esvaziar, só que estava muito inchada (ingurgitada) e não formava o bico para você pegar. 
Durante os dias que ficamos no hospital, enfermeiras, médicos, técnicos de enfermagem, todo mundo tentava, massageava e nada melhorava, eu estava achando você muito quietinho e estava preocupada com uma hipoglicemia e não deu outra, na hora de ir embora você ficou todo roxinho e quando mediram sua glicose ela estava baixa... mãe sabe das coisas, ainda mais mãe veterinária que entende de filhotes. 
Ficamos mais 4 dias no hospital porque você foi transferido para a UTIN para ser monitorado de perto. 
Enquando isso, a tia Mirtza pediu para a tia Maria Luisa me reavaliar e continuava tudo bem, só manter o gelo e esvaziar a mama o máximo que eu conseguisse.

Recebemos alta e fomos para casa feliz da vida, depois começou nossa luta para amamentar, a mamãe chorava o dia inteiro e foi assim os dois primeiros dias. 
Fomos ao banco de leite do Odete Valadares que é referência em amamentação em BH e elas enfaixaram minhas mamas, eu tinha que tirar a faixa de 3 em 3 horas, massagear, amamentar e colocar gelo... foi uma noite bem longa. 
Voltamos no dia seguinte e a melhora tinha sido insignificante. 
Continuei tentando amamentar por uma semana, até que desabafei e contei o drama em um grupo de amigas. A tia Fernanda é fonoaudióloga e indicou a clínica MameBem com a seguinte recomendação: "Cacau, a Tati foi minha professora e é top da amamentação, se ela não resolver seu problema, ninguém mais resolve!" 
Opa! Fiz contato imediato e marcamos um horário. 

Pensa em uma pessoa calma, de voz mansa e um conhecimento absurdo, essa é a Tati! A Fernanda não exagerou em nenhum momento. 
Tati olhou minha mama, massageou, fez laser e percebeu que não era excesso de leite, alguma coisa estava obstruindo a drenagem da linfa da mama e fazendo ela ficar como estava. Ela também percebeu que você sugava, sugava e não deglutia, ou seja, a mamãe não estava te alimentando e foi por isso que vc não ganhou peso na primeira consulta com a pediatra, você estava queimando calorias mamando, que doideira, né? 

A tia Tati ligou para a tia Maria Luisa, falou o que ela estava suspeitando e retornei para uma reavaliação. A tia Maria Luisa apalpou a minha axila que sempre teve uma glândula acessória e achou o aspecto estranho, não lembro se ela chegou a comentar sobre isso, você estava comigo na consulta e eu só estava preocupada com você tão pequeno fora de casa.
Ela marcou um horário com o tio Nazir que é fisioterapeuta especialista em mama para fazer uma drenagem, foi ótimo e senti um certo alívio. Ela também pediu um novo US com biópsia e no dia 09/06 domingo ela me deu a notícia: 

- "O resultado da biópsia não deu o que a gente esperava, o nódulo é maligno."  

- "O quê??? Maligno??? Eu tenho câncer???"

A partir desse momento não lembro direito da conversa, lembro que comecei a chorar e ela me abraçou. Seu pai ficou pálido, começou a tremer e eu só pensava em você! 

A semana seguinte foi a mais agitada da minha vida, tomei remédio para secar o leite - que até hj não secou por completo - e iniciamos uma bateria de exames para investigar melhor sobre o tipo de tumor. 
Na sexta feira dia 15/06 fiz a primeira sessão de quimioterapia.
No sábado, seu pai, a vovó Jussara e o tio Xande foram em Aparecida do Norte pedir pela minha cura, nossa fé é inabalável e isso é muito importante durante o tratamento, independente da religião. 

Ainda faltava sair o resultado do imunoistoquímico que mostra qual o tipo exato de tumor e esse resultado saiu ontem, dia 26/06 e ficamos muito animados porque o tipo de tumor é um dos mais agressivos e em contra partida é o que melhor responde a medicação. Primeira Vitória! 

Mas porque estou internada? A quimioterapia costuma baixar a imunidade e como tive febre precisei vir, mas isso é outra história. 

Ah! O médico falou que o cabelo vai cair e eu que sempre tive cabelos enormes, cortei curtinho! Foi uma farra danada com a tia Lu, tia Priscila e tia Cíntia no salão de beleza, mas essa também é outra história. 
Se fiquei com dó de cortar o cabelo? Nada! Cabelo cresce e isso é só um detalhe pouquíssimo importante! 

Lembra que fui fazer uma drenagem na mama com o tio Nazir? No consultório dele aconteceu uma coisa interessante, era a primeira vez que estava saindo sem você e estava muito aflita, entrei no consultório e na bancada da recepção tinha uma imagem de Nossa Senhora com a frase: "Isso também passa." 
Perguntei para a secretária que Santinha era aquela e ela respondeu: 
- "Nossa Senhora Desatadora dos Nós."
- "Que linda - poucas palavras para não chorar." 
- "Ela é linda mesmo, o doutor atende muitas mulheres aqui, muitas delas com câncer de mama e tudo passa!" 
Eu não consegui continuar a conversa, não sei explicar, mas mesmo tendo começado a chorar senti muita paz, acredito que fui naquele local para isso, Nossa Senhora queria me dizer antes do diagnóstico que tudo passa, a batalha é longa, dolorosa, cansativa e diária, mas daqui a um ano tudo isso vai ter passado e com certeza nem vamos lembrar direito de tudo que aconteceu!




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