sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Hipotireoidismo durante a gravidez

Descobri o hipotireoidismo no meu exame pré-nupcial. Pelos sintomas, tenho certeza que já tinha há muito tempo, mas ninguém nunca havia pedido um exame para verificar. Desde então, comecei o tratamento.
O grande problema é que normalmente demora muito para acertar completamente a dose e “qualquer coisinha” que acontece geralmente desestabiliza. A médica que fez meu pré-nupcial disse que estava bem alterado e me deu uma dose alta de remédio e um pedido de exame para dois meses depois. Fiz exame e levei na endocrinologista, que abaixou a dose. Nisso, de dois em dois meses eu fazia exame e alterava a dose, até encontrarmos a “dose perfeita”. Aí vem o drama: Engordou? Aumenta a dose. Emagreceu? Diminui a dose. Seu metabolismo mudou? Muda a dose. Ou seja, o controle é para o resto da vida! E na gravidez, a coisa complica um pouco mais...

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34 semanas
Quando eu estava grávida, tive que trocar de endocrinologista porque a que me atendia parou de atender meu plano de saúde. Quando a nova médica viu meu histórico, ela perguntou "Você nunca teve um aborto?". Respondi que não, indignada, e ela disse que meu TSH estava muito inconsistente ao longo do tempo e que abortos são bem comuns. Precisa nem falar que eu nunca mais voltei lá, não é?!
Realmente, o hipotireoidismo, quando não controlado na gravidez, pode causar aborto espontâneo, retardo no desenvolvimento mental do bebê... O problema foi a falta de tato da médica ao conversar com uma mulher grávida, do primeiro filho ainda por cima!

Depois, fui a outro médico. Ele perguntou se passei muito mal no início da gravidez, porque a taxa de TSH estava desregulada e isso causa muito enjoo em grávidas. Respondi que sim, que emagreci 6kg no início da gravidez e ele disse que provavelmente seria assim sempre que eu engravidasse. O médico era bonzinho, mas não senti firmeza nele. Como já estava no fim da minha gravidez, minha obstetra me acompanhou neste ponto também.

Depois que a Anna nasceu, encontrei a “médica perfeita” e agora faço acompanhamento com ela. Mas muita coisa poderia ter sido diferente se eu tivesse o conhecimento necessário antes. Então, vou explicar aqui o que é hipotireoidismo e contar um pouco sobre...


Beta HCG positivo. Gravidez!
Hemograma completo, glicemia, tipo de sangue, RH, rubéola, toxoplasmose... um milhão de exames que fazem parte do pré-natal. O que muitas mulheres não sabem que, tão importante quanto checar tudo isso aí, é saber como está o funcionamento da tireoide.

Li que, no Brasil, a recomendação é de que mulheres com alto risco para o hipotireoidismo se submetem ao exame (mulheres com histórico familiar, com alguma doença autoimune, que já fizeram cirurgia na tireoide, que tiveram repetidas vezes abortos espontâneos,...), mulheres sem estes problemas não fazem exame. Tenho nada disso aí mapeado e tenho hipotireoidismo. É sério que é melhor esperar eu ter abortos para fazer um “simples” exame de sangue?

A tireoide é uma glandulazinha (25 a 30 g) com formato semelhante a uma borboleta, localizada na altura do pescoço. Ela produz dois hormônios: a triiodotironina (T3) e a tiroxina (T4). Esses hormônios são liberados pela tireoide e são essenciais para o metabolismo, como manter a temperatura do corpo sempre em torno de 36,5 °C, controlar a queima de calorias, controlar os batimentos cardíacos, manter as funções vitais do organismo (os hormônios atuam no fígado, cérebro, rins, músculos e na pele)...

O exame de sangue capaz de identificar o hipotireoidismo mede os níveis de T4 livre e do TSH. O TSH impulsiona a tireoide a produzir T3 e T4. Quando as taxas de T3 e T4 estão normais, eles inibem o TSH. Por isso, se o TSH estiver muito alto, é sinal de que a glândula não está liberando o T3 e o T4 como deveria. Ou seja, o hipotireoidismo ocorre quando a tireoide não produz hormônios suficientes para exercer suas ações em todo o corpo. Se a tireoide não consegue “manter” seu corpo, imagina seu corpo e mais um que está formando?

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Hipotireoidismo x Hipertireoidismo

 
Hipotireoidismo x Fertilidade
Muita gente diz que hipotireoidismo causa infertilidade e eu sempre acreditei nisso. Porém, não é bem assim. O que acontece é que o hipotireoidismo altera os hormônios reprodutores da mulher e desregula os ciclos menstruais, fazendo com que nem sempre ocorra ovulação e período fértil durante o ciclo menstrual. Ou seja, não é que você seja infértil, seu ovário só não libera os óvulos que estão prontinhos para serem enviados devido a falta de hormônio.

Certa vez, ainda adolescente, fiquei 8 meses sem menstruar. Eu era virgem, ou seja, não estava grávida, e não descobriram por que estava assim. Comecei a tomar anticoncepcional nesta época, para tentar regular a menstruação. Talvez, invés de me encherem de pílulas que não fazem bem a saúde, era só eu ter regulado minha tireoide.


Hipotireoidismo exige algum cuidado antes de engravidar?
Quando engravidei a primeira vez, eu não sabia destas coisas e nem fazia um acompanhamento tão de perto. Falo que foi Deus quem quis mandar meu anjinho, pois – depois de 14 anos tomando anticoncepcionais – parei de tomar a pílula em outubro e em dezembro já estava grávida, mesmo com os hormônios alterados.
Já na segunda vez, a médica me explicou que meu TSH (Hormônio Tiroestimulante) deveria estar abaixo de 2,5 para eu poder engravidar (o recomendado é de 0,1 a 2,5 mUI/L). Ajustamos a dose (aumentei durante a gravidez e nunca mais diminuiu) e olha eu grávida de novo! O legal é que já saí do consultório com pedido de exame para fazer quando eu engravidasse, para começarmos a acompanhar o mais rápido possível.

Portanto, o ideal é que a mulher com hipotireoidismo tenha a gravidez planejada, faça a reposição de tiroxina (hormônio tireoidal sintetizado) e engravidem com concentrações normais de T4 no sangue.  Mulheres tratadas antes de engravidar apresentam apenas os mesmos riscos de uma mulher que não tem o problema. Com os hormônios regulados, a gravidez não tem risco de complicações aumentado. O hipotireoidismo bem controlado não trará qualquer prejuízo ao feto.

Se você planeja engravidar e não tem histórico de problemas de tireoide, peça exames ao seu médico mesmo assim. Melhor ter certeza que está tudo certo. “Estudos mostram que o hipotireoidismo subclínico (sem sintomas) chega a atingir de 2 a 5% das mulheres”, declara Patricia El Beitune, professora do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (RS).

A principal causa de hipotireoidismo é a deficiência de iodo. A necessidade de iodo aumenta durante a gestação e amamentação. Por isso, é importante a alimentação adequada durante a gestação.


O funcionamento da minha tireoide é normal e engravidei. Está tudo certo?
Não. A gravidez tem grande impacto no funcionamento da tireoide. Muitas vezes, essa importante glândula consegue fabricar hormônios suficientes para você, mas quando você engravida, você precisa de mais hormônio e passa a suprir as necessidades do bebê. A tireoide precisa fabricar até 50% mais hormônio para dar conta tanto da mãe quanto do bebê e nem sempre ela consegue suprir toda essa demanda.

Resultado de exame positivo? Não se desespere! Quando a mulher descobre o problema durante a gravidez e faz o tratamento corretamente, é possível reverter os possíveis danos ao bebê e à mãe.
Deve-se repetir a análise a cada 4 ou 8 semana durante toda a gestação para manter o controle da doença. Eu repetia a cada 4 semanas. Desta vez, ainda não sei como será.


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Gestação com hipotireoidismo


Sintomas
As pessoas não sabem o que é e nem entendem o hipotireoidismo. Para a maioria das pessoas, é só “engordar e não conseguir emagrecer”. Tem esse fato sim, péssimo para as mulheres, rsrsrs. Mas não é só isso. Para algumas poucas pessoas que conhecem um pouco mais (tudo pouco mesmo), acham que é preguiça e que você “tem que lutar contra” a falta de vontade de fazer as coisas.
O que as pessoas não entendem, é que a tireoide controla muito do nosso metabolismo. Só quem tem essa doença sabe como os problemas são reais. Só quem sempre ouve dos médicos: “nossa! Sua tireoide é muito pequena, quase não dá pra sentir” sabe como é difícil. E é frustrante demais, porque tem dia que não dá nem pra levantar para tomar banho, de tanta necessidade de descansar, de dormir, de deixar o corpo quieto. É frustrante pessoas próximas te chamarem de folgada, irresponsável, lerda, distraída, esquecida... Não, não sou isso tudo, só estou doente. Me esforço muito para ficar bem e, com o tratamento, fica bem mais fácil. Mas qualquer desregulada que acontece com o hormônio, fica difícil reagir.
Pode parecer drama. Podem ter pessoas com hipotireoidismo lendo e pensando “tenho nada disso” e outras pensando “nossa, é exatamente assim”. Mas, assim como qualquer doença , varia de pessoa para pessoa. Tem gente que morre de dengue e tem gente que sente como se fosse uma forte gripe. O corpo de cada pessoa reage de forma diferente!

Pode ocorrer a falta de sintomas (conforme falado acima), porém, o que não falta são sintomas para identificar hipotireoidismo: cansaço, fraqueza, grande desânimo que pode mesmo levar à depressão, dificuldade para perder peso, pele e cabelo ressecados, unhas fracas, queda de cabelo, intestino preso, voz rouca, lentidão ao falar, dor e adormecimento das mãos (síndrome do túnel do carpo), pulso lento, câimbras musculares, confusão mental, esquecimento, inchaço no rosto, expressão facial de aborrecimento, pálpebra caída (a minha já está quase chegando no queixo. Não vejo a hora de fazer plástica!)...  
Durante a gravidez, é mais difícil distinguir sintomas do hipotireoidismo e da própria gestação, como o sono e a prisão de ventre. Por isso é importante a realização de exames.

Na primeira gravidez, eu fiquei um lixo! Vomitava muito, comia pouco, só queria dormir... Mas os níveis de TSH estavam alterados, então, foi mais pesado.
Nesta gravidez, o cansaço e o sono estão absurdos, tenho sentido muito frio também. Mas estou imensamente melhor do que na primeira gestação. Ponto para os hormônios controlados!


Quais os riscos para a mãe e o bebê?
Quero deixar claro que, estudos comprovaram que o hipotireoidismo em gestantes não costuma ter efeitos significativos desde que esteja controlado. Portanto, se cuidem!
A médica me explicou que a glândula do bebê é formada em torno dos 3 meses (12 semanas). Antes disso, o bebê é totalmente dependente dos hormônios tireoideanos da mãe, que são necessários para o desenvolvimento neurológico do bebê. 
Depois dos 3 meses, o bebê começa a produzir hormônios tireoidianos, mas ainda não são suficientes para ele. O feto só começa a produzir hormônio da tireoide em quantidade significativa a partir 6 meses (li isso na internet. Uma das médicas que fui me disse que era em torno dos 8).

Caso a mãe não faça reposição do hormônio, há riscos!
Vamos começar de um triste: o risco de aborto espontâneo cresce em até três vezes. Mas os demais riscos também não são bons:

Riscos para a mãe
Anemia;
Descolamento de placenta;
Diabetes gestacional;
Hemorragia pós-parto;
Parto prematuro;
Placenta prévia;
Pré-eclâmpsia.

Riscos para o bebê
Atraso no desenvolvimento mental;
Baixo peso ao nascer;
Baixo QI;
Defeitos cardíacos;
Dificuldade de aprendizado;
Dificuldade em memorizar;
Nascer abaixo do tamanho;
Nascer menos ativo;
Sofrimento fetal.


Tratamento
O tratamento básico consiste em ampliar a dose de L-Tiroxina para ser suficiente para a gravidez (mãe e bebê). Minha médica disse o seguinte: você está tomando 75mcg. Descobriu que está grávida hoje, amanhã muda a dose para 100mcg. Então, faz o exame de sangue para vermos como está (e me deixou com o pedido).

Essa dose foi a que encontramos para mim. A dose que deve ser administrada varia muito de pessoa para pessoa. Mas o mais importante é: o tratamento não apresenta riscos para a saúde da mãe, nem do bebê.
E exames de sangue devem ser realizados periodicamente, já que se exceder na dose, o hipotireoidismo pode dar lugar ao hipertireoidismo (excesso de hormônio tireoidiano), que também não é bom. 

O medicamento deve ser tomado ao acordar, ainda em jejum. Após ingerir o medicamento, a pessoa deve ficar, no mínimo, 30 minutos sem comer. Isso é importante para garantir a absorção do medicamento no organismo. No meu caso, grávida, ficar sem comer assim aumenta os enjoos, mas não tenho escolha!!!


Meu bebê nasceu. Ainda preciso me preocupar?
Sim! Quem já é mãe sabe como é o pós-parto. O corpo mudou muito durante a gravidez e agora ele trabalha para se recuperar.
Do pós-parto até um ano depois, pode ocorrer um efeito rebote da imunidade. Durante a gravidez, a imunidade abaixa para que o corpo pare de combater o “corpo estranho” (feto). Quando o bebê nasce, os anticorpos voltam ao normal e, algumas vezes, mais agressivos. Então, eles podem atacar a tireoide como se ela fosse um corpo estranho, causando uma inflamação que pode evoluir para a tireoidite de Hashimoto, que é o que eu tenho (distúrbio autoimune que faz com que o sistema de defesa do corpo passe a atacar a tireoide como se fosse um organismo invasor.).

Como alguns dos sintomas de hipotireoidismo lembram a depressão (variação de humor, desânimo, cansaço, falta de vontade de fazer as coisas...) muitas mulheres são diagnosticadas com depressão pós-parto quando deveriam ser tratadas para disfunção da tireoide.

Muitas vezes este quadro é revertido e a tireoide é normalizada (pelo que li, 60% das mulheres).


O texto ficou enorme, né?! Mas espero ter ajudado!  ;)


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@minhas24horas









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