segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Antigamente Existia Bullying?


Vez em quando ouço alguém dizer que antigamente não existia bullying, que os colegas da escola, da rua, da família zoavam uns aos outros e que não existia esse mimimi de hoje em dia. Uau! Como eu presencio alguém dizendo isso ou algo próximo disso com frequência. 

Quem faz esse tipo de comentário talvez não sofreu bullying, talvez não viu ninguém sofrendo, talvez praticou bullying ou talvez aplaudiu quem praticou... Não sei! Só sei que é bem difícil que alguém que tenha sofrido bullying ache que estava tudo bem e/ou que ficou tudo bem. 

Ainda bem que hoje em dia podemos debater assuntos desse tipo coletivamente, de forma a conscientizar e prevenir práticas do tipo, que costumam deixar cicatrizes emocionais em suas vítimas. Aproveitando, setembro é o mês da campanha mundial Setembro Amarelo, de prevenção do suicídio e uma das formas de lutar contra esse desfecho é acolher o próximo, ouvindo e não ridicularizando seus problemas. Por isso, quando ouvir de alguém que sofre bullying ou qualquer tipo de discriminação não releve com um "antigamente não existia isso". Se você não consegue minimizar a dor do próximo, pelo menos respeite! 


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Fonte: O Democrata 

Eu sofri bullying! Por N vezes e por N motivos. De pessoas que frequentavam a minha casa e de pessoas que frequentavam as escolas onde estudei. 

A diferença é que naquela época eu não ouvia falar de bullying e, por isso, costumava acreditar que o problema estava mesmo em mim, por não ser como as pessoas esperavam que eu fosse. 

Eu não era uma criança vaidosa. Sempre fui aventureira, tatuada de machucados e amante dos livros. Meu penteado tradicional era um rabo de cavalo, grande porque eu não cortava o cabelo (por N outros motivos), e, por causa da situação financeira da minha família, costumava usar as roupas da minha mãe e as da filha da chefe dela. Eu sempre achei normal ser o que quiser com o que tiver, mas, quando ia para a escola, costumava achar que tinha problemas.

Cansei de ganhar apelidos por causa de algumas características físicas marcantes. Cansei de ouvir pessoas falando do meu cabelo e das minhas roupas. Sempre fui comparada com a minha irmã (que sempre foi infinitamente mais magra) e com uma prima da mesma idade (que sempre estava melhor vestida e arrumada). Muitas vezes eram pessoas próximas que diziam que eu me vestia como pessoas mais velhas, que eu era gordinha, que parecia uma bruxa ou alguém de algum filme de exorcismo. Hoje, eu até consigo rir disso tudo porque vejo que devia ter preocupado menos, ter chorado menos, ter sofrido menos, porque ninguém merecia essa dor dentro de mim, principalmente eu, mas não era assim. Eu sofria! 

Esperava todo mundo sair da sala de aula quando o sinal batia para revirar a lixeira, pois sempre encontrava bilhetes falando de mim, com piadas sobre minhas roupas ou por qualquer outro motivo. Eu sofria, calada! Guardava tudo aquilo para mim e meus diários, tudo aquilo que me fazia chorar num canto escondido, tudo aquilo que me fazia querer fugir, querer sumir e mesmo morrer algumas vezes. Talvez eu fosse fraca mesmo, talvez fosse tudo aquilo que as pessoas falavam, talvez, talvez, talvez... 

Mas se eu pudesse voltar, agora que sou crescida, e abraçar aquela menina que um dia eu fui, diria para ela tudo o que ela pode ser e conseguir sendo ela mesma, sem se importar para o prazer que os outros têm em dizer coisas destrutíveis. Por isso não me culpo mais! E toda vez que penso que algo está difícil, digo a mim mesma: continue por aquela garotinha, não desista por aquela garotinha, que sempre teve sonhos, que sempre quis o mundo e que foi forte para superar o bullying

Foi assim até meus 14 anos, quando mudei para uma escola muito diferente e descobri que a diversidade faz parte do mundo, que errada são essas ideologias que fazem as pessoas acreditarem que existe supremacia de alguns grupos em relação a outros.

Tudo que fiz dali em diante foi percorrer os sonhos que um dia aquela menina teve, como se fosse a minha eterna dívida por ela ter resistido bravamente, sem desistir da vida. Afinal, se ela tivesse desistido, eu não estaria aqui hoje para contar essa história e alertar que o que pode parecer brincadeira para você, pode ser mais uma ferida no psicológico de alguém que, um dia, após o acúmulo de cicatrizes, pode não ser mais tão resistente.

Será que é justo fazermos isso com alguém? Aceitar que alguém faça na nossa frente sem nos manifestarmos? Rir e concordar quando alguém fizer? Dizer que é só brincadeira? Permitir que nossos filhos sejam essas crianças que fazem isso com as outras? 

Eu sei! É um policiamento e uma luta sem fim! Só espero que as pessoas não precisem passar por isso para entender que não é bobagem, mas que é a vida de uma pessoa que pode estar em suas mãos.    


MAIS AMOR, POR FAVOR!








    
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